Início » Nobel de Química 2021

Nobel de Química 2021


Nobel de Química 2021 vai para Benjamin List e David MacMillan, por nova ferramenta de construção de moléculas. Vencedores dividirão o prêmio, que totaliza 10 milhões de coroas suecas (cerca de R$ 6,1 milhões). As láureas em Literatura e Paz serão entregues ainda nesta semana; já a de Economia será divulgada na próxima segunda (11).

Por Lara Pinheiro, g1
 
Benjamin List e David W.C. MacMillan são os ganhadores do Prêmio Nobel 2021 em Química, anunciou a Academia Real das Ciências da Suécia nesta quarta-feira (6), pelo desenvolvimento de uma nova ferramenta de construção de moléculas: a organocatálise.
 
Essa ferramenta é útil para pesquisa de novos produtos farmacêuticos e também ajudou a tornar a química mais verde, segundo o comitê do Nobel (veja detalhes mais abaixo).
 
Os vencedores dividirão o prêmio, que totaliza 10 milhões de coroas suecas (cerca de R$ 6,1 milhões).
 
A descoberta
 
Como muitas reações químicas são muito lentas, é comum que cientistas usem catalisadores – substâncias que aumentam a velocidade de uma reação.
 
Por muito tempo, cientistas acreditaram que havia apenas dois tipos de catalisadores: metais e enzimas.
 
Trabalhando separadamente, Benjamin List e David MacMillan desenvolveram, em 2000, um terceiro tipo de catalisador – a organocatálise assimétrica, que se baseia em pequenas moléculas orgânicas.
 
Essas moléculas tornaram as reações mais rápidas, eficientes e com menor impacto ambiental. A ferramenta também tornou muito mais fácil produzir moléculas assimétricas.

Benjamin List e David MacMillan, vencedores do prêmio Nobel de Química em 2021 — Foto: Claudio Bresciani/TT News Agency/via Reuters

Benjamin List e David MacMillan, vencedores do prêmio Nobel de Química em 2021 — Foto: Claudio Bresciani/TT News Agency/via Reuters

 

"'Assimétrica' significa que alguns tipos de moléculas podem existir em duas formas, que são a imagem no espelho uma da outra. A composição é a mesma, mas a posição relativa dos átomos da molécula são imagens especulares. Quando a gente está tentando desenvolver um fármaco, é importante que desenvolva com a composição correta, mas não só isso: que ele seja a imagem especular correta, que seja a apresentação que a gente deseja", explica o pesquisador André Formiga, do Instituto de Química da Unicamp.
 
Na imagem abaixo, por exemplo, ambas as moléculas são do limoneno. Mas, na forma com que ela se apresenta à esquerda, tem cheiro de limão. Já a forma da direita tem cheiro de laranja. Os átomos são os mesmos, mas a organização deles dentro da molécula é diferente:
 
Na imagem, ambas as moléculas são do limoneno. Mas, na forma com que ela se apresenta à esquerda, tem cheiro de limão. Já a forma da direita tem cheiro de laranja. Os átomos são os mesmos, mas a organização deles dentro da molécula é diferente. — Foto: Reprodução/The Nobel Prize
Na imagem, ambas as moléculas são do limoneno. Mas, na forma com que ela se apresenta à esquerda, tem cheiro de limão. Já a forma da direita tem cheiro de laranja. Os átomos são os mesmos, mas a organização deles dentro da molécula é diferente. — Foto: Reprodução/The Nobel Prize
 
"Então, organocatálise assimétrica é esse novo campo da química, criado por esses dois cientistas, em que se tornou possível produzir moléculas muito específicas – que são uma única das duas possibilidades das imagens especulares – usando um catalisador orgânico", completa Formiga.
 
"Isso é uma quebra de paradigma, uma grande transformação, porque, até o ano 2000, ninguém nunca tinha conseguido fazer uma reação desse tipo utilizando o apenas uma molécula orgânica como um catalisador", afirma o pesquisador da Unicamp.
 
Segundo o brasileiro, a descoberta de List e MacMillan transformou a química: passou a haver muito investimento nessa área por cientistas, universidades e, também, pelas indústrias química e farmacêutica.
 
"É uma revolução real, muito importante, porque o que se faz hoje em dia é tentar produzir moléculas que não podem ser sintetizadas pela natureza e que também não podem ser obtidas com os catalisadores naturais", explica o pesquisador.
 
"Vai, com certeza, continuar a impactar a sociedade, porque vai continuar permitindo que a gente produza novas moléculas de uma forma mais amigável, mais sustentável, que cause um impacto ambiental menor no futuro", diz.
 
Na avaliação de Formiga, a escolha do Nobel foi "excelente".
 
"É um prêmio fantástico. Talvez uma das áreas mais importantes da química que, até hoje, não tinha sido reconhecida por um prêmio tão importante. Muito bem vindo, porque ele valoriza a ciência fundamental", lembra.
 
"E os dois cientistas agraciados são realmente as duas pessoas que iniciaram isso – na época, talvez não antevissem o grande impacto que a descoberta deles teria na tecnologia. Então, eles começaram um estudo fundamental, e, hoje, muitos remédios que a gente utiliza – muitos antivirais, muitas moléculas – são feitas utilizando os métodos que eles criaram. Realmente fantástico", completa. 
 
No ano passado, o prêmio de Química foi para Emmanuelle Charpentier e Jennifer Doudna pelo desenvolvimento do Crispr, método de edição do genoma. Foi a primeira vez na história que duas mulheres ganharam, juntas, o Nobel de Química.
 
Os vencedores
 
  • Benjamin List nasceu em 1968 em Frankfurt, na Alemanha. Obteve o doutorado em 1997 da Universidade Goethe, em Frankfurt. É diretor e pesquisador do Instituto Max Planck para Pesquisa com Carvão, em Mülheim an der Ruhr, na Alemanha.
  • David MacMillan nasceu em 1968 em Bellshill, no Reino Unido. Obteve o doutorado em 1996 da Universidade da Califórnia em Irvine, nos Estados Unidos. Hoje, é pesquisador da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos. Ele é o segundo laureado da universidade neste ano; o primeiro foi Syukuro Manabe, um dos vencedores do Nobel de física.

 

Fonte: https://g1.globo.com/ciencia/noticia/2021/10/06/nobel-de-quimica-2021-va...