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Evidências científicas sobre uso da cloroquina contra Covid-19

Autor: Liana Coll. Fotos: Antonio Scarpinetti. Edição de imagem: Paulo Cavalheri.
 
As comunidades médicas e científicas são enfáticas: não há comprovação para a eficácia do uso da cloroquina e da hidroxicloroquina em casos de Covid-19, a doença causada pelo novo coronavírus (SARS-Cov-2). Recentes estudos demonstram, pelo contrário, a falta de segurança na rotina clínica com os medicamentos. A arritmia cardíaca, um dos efeitos colaterais mais frequentes, é potencialmente fatal, conforme o alerta de pesquisadores.
 
Após analisar pesquisas recentes relativas à rotina de tratamento com cloroquina e hidroxicloroquina (composto análogo à cloroquina), o professor do Instituto de Química da Unicamp, Luiz Carlos Dias, indica que “os resultados de ensaios clínicos em seres humanos para SARS-CoV-2, em diferentes estágios da infecção, não são favoráveis”. Os estudos que mostram algum benefício, diz, foram feitos de forma não randomizada, sem placebos e sem duplo-cegos, procedimentos de pesquisa que são adotados para dar mais segurança nos resultados sobre a eficácia clínica do medicamento. 
 
O docente, que atua no desenvolvimento de fármacos para doenças negligenciadas, entre elas a malária, uma das enfermidades para as quais a cloroquina é utilizada no Brasil, observa que, por conta dos efeitos adversos, mesmo no caso da malária, em que há comprovação da eficácia, a administração do medicamento é feita somente com um rigoroso acompanhamento do paciente. Dessa forma, para ele, a melhor alternativa de controle da pandemia do novo coronavírus, no momento, é o isolamento social.
 
Cloroquina e azitromicina, combinação sugerida pelo Ministério da Saúde, junta dois medicamentos que podem causar arritmia cardíaca, diz professor Luiz Carlos
 
Mesmo reconhecendo que não há garantias de resultados positivos, o Ministério da Saúde, em protocolo publicado nesta quarta-feira (20), recomendou a ampliação da utilização da cloroquina para casos leves da doença no Brasil. Na recomendação do Ministério da Saúde, determinada pelo presidente Jair Bolsonaro, indica-se que o medicamento seja administrado junto à azitromicina, um antibiótico. A azitromicina, assim como a cloroquina e hidroxicloroquina, também pode causar arritmia cardíaca. “Você junta dois medicamentos que causam arritmia cardíaca, o que pode ser fatal”, alerta Luiz Carlos.
 
A decisão contraria as Diretrizes para o Tratamento Farmacológico da Covid-19, divulgada por Sociedades Médicas um dia antes. Na publicação, assinada em conjunto pela Associação Brasileira de Medicina Intensiva, Sociedade Brasileira de Infectologias e Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, os médicos pontuam o nível baixo ou muito baixo de evidências na rotina no tratamento da doença com a cloroquina ou hidroxicloroquina e recomendam que não sejam utilizadas, nem sozinhas nem combinadas à azitromicina.
 
A Organização Mundial da Saúde (OMS), por meio de seu diretor de emergências, Michel Ryan, se manifestou após a decisão do governo brasileiro afirmando que “nem a cloroquina nem a hidroxicloroquina têm sido efetivas no tratamento da Covid-19 ou nas profilaxias contra a infecção pela doença. Na verdade, é o oposto". O Conselho Nacional de Secretários de Saúde (CONASS) também divulgou nota destacando que a decisão do Ministério da Saúde não teve participação técnica e tampouco pactuação tripartite, ou seja, não foi de comum acordo entre federação, estados e municípios.
 
"Não há estudos científicos publicados sobre o uso no começo da doença e nem em relação à dosagem segura", diz o pesquisador
 
Sem evidências científicas
 
As recomendações de uso da cloroquina em casos leves, para Luiz Carlos, não passam de opiniões pessoais. O docente, que 2016 mostrou que não havia comprovação da eficácia da fosfoetalomina, chamada popularmente de "pílula do câncer", contra as células cancerígenas, recomenda que qualquer decisão sobre a cloroquina e a hidroxicloroquina seja baseada em evidências científicas. “Não há estudos científicos publicados sobre o uso no começo da doença e nem em relação à dosagem segura. Precisamos de mais estudos e investigações que confirmem se existe realmente eficiência no início da enfermidade, pois só há relatos pessoais de médicos, mas falta provar isso num ensaio clínico, seguindo o rigor científico, com controle, ou os resultados podem ser desastrosos para a população”, diz o professor.
 
Além de não haver evidências de eficácia com pacientes que apresentam sintomas leves, ele aponta que estudos realizados com pacientes graves, internados em Unidade de Terapia Intensiva (UTI), também sinalizam que a combinação, assim com a administração individual dos medicamentos, não é positiva. “Vários ensaios realizados e publicados em periódicos conceituados na área médica e ensaios clínicos realizados em vários países já mostraram que a combinação hidroxicloroquina e azitromicina ou cloroquina e azimitromicina, ou a cloroquina e hidroxicloroquina sozinhas, não têm nenhum benefício para pacientes em UTI”.
 
Há pelo menos sete ensaios clínicos, um deles no Brasil, que foram interrompidos em virtude de morte de pacientes por arritmia cardíaca. “Certamente um número maior de estudos é necessário. Não existe medicamento milagroso no caso da Covid-19, a ciência precisa de tempo e os cientistas estão trabalhando para desenvolver uma vacina e encontrar um medicamento que diminua o tempo de internação aumentando o giro de leitos em UTIs”.
 
Para Luiz Carlos, é preciso entender que há perigo em propagar um medicamento não validado como uma possível solução. Ele também alerta que a cloroquina e a hidroxicloroquina, sob hipótese alguma, podem ser utilizadas como prevenção. “As pessoas não podem acreditar que existe uma cura e sair do isolamento, irem para as ruas, acreditando que caso sejam infectadas serão curadas por estes medicamentos. Quem está defendendo o uso da cloroquina está desvirtuando todos os resultados publicados em revistas internacionais conceituadas e se apegando a relatos pessoais ou a estudos que são considerados falhos e sem autorização do Conselho Nacional de Ética em Pesquisa”, afirma.